INTEGRAÇÃO ENTRE SABERES TRADICIONAIS E ENSINO DE CIÊNCIAS: DESAFIOS E POTENCIALIDADES AMAZÔNICAS

Autores

DOI:

https://doi.org/10.59666/Arete.1984-7505.v25.n39.5104

Palavras-chave:

Ensino de ciências, Saberes tradicionais, Educação intercultural, Formação de professores, Amazônia

Resumo

A Amazônia abriga grande diversidade sociocultural e ambiental, onde comunidades indígenas e ribeirinhas desenvolvem saberes tradicionais profundamente enraizados em suas experiências e relações com a natureza. Entretanto, esses conhecimentos raramente integram os currículos das licenciaturas e das aulas de ciências, o que gera distanciamento entre a formação de professores e as realidades amazônicas. Este artigo analisa, à luz de experiências recentes, a integração entre saberes tradicionais e ensino de Ciências, problematizando desafios e potencialidades no contexto amazônico. A pesquisa adota abordagem qualitativa, com revisão bibliográfica e análise do estudo de caso da comunidade Ticuna de Ũ’tchigüne (Benjamin Constant/AM), em que um projeto pedagógico articulou conhecimentos científicos e populares sobre plantas medicinais. Os resultados indicam que a incorporação dos saberes tradicionais enriquece o currículo, fortalece a identidade cultural e promove uma educação contextualizada e inclusiva. Observam‑se, contudo, obstáculos como preconceitos epistemológicos, falta de formação específica e resistência institucional. Também se destaca a relevância das políticas públicas: o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação defendeu recentemente que a ciência deve dialogar com os conhecimentos tradicionais para enfrentar desafios como as mudanças climáticas. Conclui‑se que a integração de saberes na formação docente e no ensino de Ciências é fundamental para uma educação amazônica crítica e sustentável, exigindo investimento em programas de formação Giordan, participação das comunidades e apoio institucional

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Publicado

2025-12-30

Como Citar

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