v. 11 n. 11 (8): Dossiê Entre Cipós e Vaga-lumes: a força epistêmica e o brilho poético da Docência Amazônica
Há ciências que se pretendem neutras, assépticas, universais, construídas sob a frieza de laboratórios controlados ou no isolamento de gabinetes acadêmicos eurocentrados. E há ciências que nascem do chão, da poeira das ruas não asfaltadas, do som do teto de zinco sob a chuva torrencial, do pulsar dos becos e da resistência das palafitas que contornam os igarapés urbanos. São ciências que não se separam do afeto, que pulsam porque são visceralmente vividas e que sangram porque são reais. É nesta segunda categoria — a das ciências que sentem, que se movem e que transformam — que se inscreve este dossiê, intitulado “Entre Cipós e Vaga-lumes: a Força Epistêmica e o Brilho Poético da Docência Amazônica.
O título que batiza esta coletânea e que agora se oferece ao público leitor desta revista não é um mero adorno metafórico. Trata-se de uma categoria geográfica, política, existencial e metodológica. Os cipós aqui representam o emaranhado labiríntico e sufocante que caracteriza os cotidianos das escolas públicas nas periferias urbanas de Manaus: a precarização estrutural, a vulnerabilidade social que muitas vezes rondam os muros escolares, as burocracias institucionais esmagadoras, o cansaço sistemático que pesa nos ombros de mulheres trabalhadoras e as teias invisíveis do preconceito de classe e de território. O cipó urbano aperta, tensiona e tenta silenciar a escola da periferia amazônica. Mas é justamente por entre as frestas desse emaranhado de asfalto, concreto e contrastes sociais que surgem os vaga-lumes. Pequenos, soberanos, carregando em si a própria matriz de luminosidade, os vaga-lumes são as professoras da educação básica. Neste dossiê, os LUMES não são meras divisões textuais ou capítulos abstratos; os LUMES são as próprias escolas reais, territórios de carne, osso, giz e sonho.